Publicado em S. | Deixar um comentário »

Imagem por Paul Schiek
Existe um conforto em tudo aquilo que é humano. Existe a mágoa em todas as criações do homem que vem de uma tarefa solitária de criar o mundo próprio. De mentir para si mesmo com constância, mas, a cima de tudo, sem saber que está mentindo. É humano a consolidação de verdades que são pautadas nas experiências próprias, mas é uma perdição o não reconhecimento da fragilidade de toda essa arquitetura de verdades. Mas o que é essa verdade que o homem busca construir?
O conforto da vida humana vem da capacidade de prever os acontecimentos. De interpretar sinais indicativos do futuro. Porém o futuro é um objeto inalcançável, estará sempre à frente. Como um jumento que perseguiria a cenoura na ponta da vara, o homem busca alcançar o futuro antes de seu acontecimento, antes que seja o fato presente. A fim disto, é do ser humano buscar identificar as constantes da natureza. Mas o homem é incapaz de compreender a natureza universal em sua essência, só lhe é possível compreender a sua natureza particular, ou seja, aquela que é elaborada pela consciência humana.
Dessa forma o homem se faz substituto de Deus. Ele inicia a criação de um complexo de verdades baseados em sua “própria imagem”. Nietzsche escreve: “O homem procura a ‘verdade’: um mundo que não se contradiz, não se engana, não muda, um mundo verdadeiro…”. O agravante é que se iniciou uma compreensão da verdade absoluta a tal ponto que na história do homem isso já está em níveis de mentira inaceitáveis. Aqueles que conseguem por motivos óbvios perceber essa arquitetura de aparências se encontram perante um mundo movido pela mentira. Somos filhos de nossas mentiras. Fomos criados pelas mentiras.
O que mais me irritaria nesse momento, o que mais me irrita em tudo isso é dar as costas a compreensão de como vivemos em um mundo artificial. É o conforto dessa verdade que criamos, é o conforto em saber que amanhã milhões de pessoas morrerão em todo o mundo por conta das mentiras que os homens contam. A certeza, a “verdade” move o homem. Jamais se arriscaria a incerteza de voar por um mundo de consciência. Um mundo de possibilidades tão múltiplas como a consciência humana. O caos infinito.
E como se poderia viver nessa verdade caótica? E como seria o mundo do homem em caos, do homem que enxerga a sua consciência, do homem que é consciente de si? Seríamos todos personagens de nosso sonhos, do fenômeno da existência. Isso é dizer sim a verdade, é dizer sim ao momento “e quando se diz Sim ao momento está se dizendo Sim a eternidade”.
Publicado em Por essas linhas | 1 Comentário »
Para alguns ela é mastro,
e basta.
Assim sendo, me desfaço.
Sempre entre o medo e desprezo,
estive preso.
Me fizestes tão mal
e agora faço de mim uma nau.
Corto ondas de sal
Grosso como a terra.
Minhas mãos agora quebram
coisas duras como pedra.
Bebo água suja.
Dessa água cristalina,
não mais tenho sede.
Agora sou uma única vontade,
Que faz tudo vir a ser.
Publicado em Império | 2 Comentários »
Destruo a concretude dos fatos.
Me agrada mais a fragilidade do lastro
que me mantém.
Desejo o mais obscuro bem,
procuro o mais profundo ser.
Enfim, a noite é o que me atrai
Talvez ela me queira bem.
Publicado em Império | 2 Comentários »
Por S.cco; 31.03.09 – 23:58
Ser não é fácil. Muitos pensam tratar-se de uma forma de se inserir na sociedade, de interagir com a sociedade; ser é bem mais difícil. Ser é ter de trepar com a sociedade; tornar-se parte dela e aceitar boa parte dos preceitos que ela impõe.
Cabe, portanto uma análise. Ser para ter, diria uma moça… Ter o quê? Dinheiro? Poder? Amor?
Sou. Mas não me importo com dinheiro, nem com poder. Me interessa o Amor. E me interessa o Amor em todas as suas facetas. Tesão, carinho, desejo, prazer, gozo. Amor. Amor incondicional me faz ser mais intenso. O tesão incondicional também me faz intenso. As relações efêmeras me são intensas. Onde está o Amor?
Ser é ter instinto animal; cio.
Ser é modificar a sociedade. Como?
Pela arte, quem sabe? Os artistas não o sabem. Pelo menos não o sabem até a corromperem. Corromper a sociedade seria ser? Ser o quê?
Ser;
Ser algo que querem que seja;
Se quiser ser,
Seja!
O que quiser.
Portanto não sou. Não sou o que querem que eu seja.
Nunca fui, em fato.
Mas não deixo de ser. O quê?
Me diz você…
Publicado em Império, S. | 2 Comentários »
Eu semeei essas terras. Por aqui passaram os senhores de um mundo perdido e deixaram o fecundo ser em expansão. Por essas terras caminharam as vozes do tempo, desde o mais agudo berro da criança egoísta até a mais rouca história do velho mentiroso. O Sol que hoje brilha em outros dias já brilhou. E em minha terra eu planto e eu colho. Em minha terra eu descubro os cantos simpáticos e afloreço em desacordo com o estar. Eu vejo, e até onde eu vejo é minha terra, é meu domínio.
O homem que passa sou eu. O homem que fica sou eu. O homem que vejo sou eu. O homem que fala sou eu, porque sou eu o homem que escuta. A árvore que agrada com sua sombra a beira da estrada ou a margem do rio sou eu agradado pela sombra. A árvore não está ali, esta aqui, aqui dentro, pois sou eu o senhor dessas terras. Em um canto eu deixei que corresse o rio para levar e trazer do chão o milagre. Em outro canto eu plantei as flores que crescem sem que se precise plantar e deixei de abandonar minhas preces para que brotasse nos olhos meus as flores mais agrestes. E num canto esquecido eu plantei… eu deixei, longe de minhas vistas, que crescesse a floresta mais sombria.
Em minha terra ninguém entra sem meu consentimento.
Oh! Em minha terra não tem lei.
Em minha terra não sou eu quem manda.
Em minha terra tem você.
Em minha terra as tempestades varreram tudo.
Tiraram-me o trigo e o fumo.
Em minha terra você anda no escuro.
Em minha terra o Sol é mudo.
Em minha terra eu sou vagabundo,
errante de mim.
Sou inalcançável.
Anterior a tudo.
E nada brota do meu ser que não seja meu inquilino.
Hospedeiro de mim.
Tudo que é meu é agora meu senhor.
Publicado em Império | 2 Comentários »