Feeds:
Posts
Comentários

Jardins

O silêncio,

o obscuro temor,

alegra a má consciência.

Outrora

fizestes de mim credor

embora também devedor.

Triste consciência

que pariu o horror.

Será sapiência

quem marginaliza o amor?

Triste, a saber, sem cor.

Bela consciência,

brota a sós no canteiro,

Uma flor sem ressentimento.

Viva!

Um cheiro alegra o dissabor.

Anúncios

Ode ao Coração Errante

Imagem por Kelly Gratton

Em meio ao rebanho

és ímpar e faz rimas.

Eleva o espírito

puro como teu sangue,

pedra como diamante.

Teu rosto fervente

evapora o choro.

Um grito ardente,

corta o vento que nem fogo.

Exalta o que hai de ser.

Festeja o que vem a ser.

Celebra até a dor.

E assim segue

a todo vapor.

Coroado

moleque.

Imagem por Li Hui

O devir
Eis meu único dever.
Um amanhecer trágico
pintado a raios
em cólera acorda fascinado,
transtornado.
O desespero da última maravilha
ora anunciado a mim,
agora prenunciado em mim,
em  mim
confinado,
assinala o crime capital
imortalizado
num instante total,
obscuro
sereno.
Não há mais tempo
tudo retornará.

2101/12:36

Devaneios poéticos transcendentais
de um idiota confesso;
de um ex-fumante que fuma;
de um bêbado que bebe;
de um amante que ama.


De um amante que bebe
e um bêbado que fuma;
de um fumante confesso
e um ex-idiota transcendental;
ainda assim, devaneios poéticos. 

2808/02:26

Olha a vida passar e
não acredita
como tanto tempo anda tão rápido.
Tem a impressão
de que o dia,
dia
a
dia, é lento.
Bem lento;
e olha a vida passar;
rápido, muito rápido.
Não é mais criança e não chora à toa;
nem rapaz, enamorado,
inseguro;
adulto.
Corre contra o tempo.

Eu vi a “verdade”

Imagem por Paul Schiek

Imagem por Paul Schiek

Existe um conforto em tudo aquilo que é humano. Existe a mágoa em todas as criações do homem que vem de uma tarefa solitária de criar o mundo próprio. De mentir para si mesmo com constância, mas, a cima de tudo, sem saber que está mentindo. É humano a consolidação de verdades que são pautadas nas experiências próprias, mas é uma perdição o não reconhecimento da fragilidade de toda essa arquitetura de verdades. Mas o que é essa verdade que o homem busca construir?

O conforto da vida humana vem da capacidade de prever os acontecimentos. De interpretar sinais indicativos do futuro. Porém o futuro é um objeto inalcançável, estará sempre à frente. Como um jumento que perseguiria a cenoura na ponta da vara, o homem busca alcançar o futuro antes de seu acontecimento, antes que seja o fato presente. A fim disto, é do ser humano buscar identificar as constantes da natureza. Mas o homem é incapaz de compreender a natureza universal em sua essência, só lhe é possível compreender a sua natureza particular, ou seja, aquela que é elaborada pela consciência humana.

Dessa forma o homem se faz substituto de Deus. Ele inicia a criação de um complexo de verdades baseados em sua “própria imagem”. Nietzsche escreve: “O homem procura a ‘verdade’: um mundo que não se contradiz, não se engana, não muda, um mundo verdadeiro…”. O agravante é que se iniciou uma compreensão da verdade absoluta a tal ponto que na história do homem isso já está em níveis de mentira inaceitáveis. Aqueles que conseguem por motivos óbvios perceber essa arquitetura de aparências se encontram perante um mundo movido pela mentira. Somos filhos de nossas mentiras. Fomos criados pelas mentiras.

O que mais me irritaria nesse momento, o que mais me irrita em tudo isso é dar as costas a compreensão de como vivemos em um mundo artificial. É o conforto dessa verdade que criamos, é o conforto em saber que amanhã milhões de pessoas morrerão em todo o mundo por conta das mentiras que os homens contam. A certeza, a “verdade” move o homem. Jamais se arriscaria a incerteza de voar por um mundo de consciência. Um mundo de possibilidades tão múltiplas como a consciência humana. O caos infinito.

E como se poderia viver nessa verdade caótica? E como seria o mundo do homem em caos, do homem que enxerga a sua consciência, do homem que é consciente de si? Seríamos todos personagens de nosso sonhos, do fenômeno da existência. Isso é dizer sim a verdade, é dizer sim ao momento “e quando se diz Sim ao momento está se dizendo Sim a eternidade”.

Sem título

Para alguns ela é mastro,

e basta.

Assim sendo, me desfaço.

Sempre entre o medo e desprezo,

estive preso.

Me fizestes tão mal

e agora faço de mim uma nau.

Corto ondas de sal

Grosso como a terra.

Minhas mãos agora quebram

coisas duras como pedra.

Bebo água suja.

Dessa água cristalina,

não mais tenho sede.

Agora sou uma única vontade,

Que faz tudo vir a ser.